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Esta discussão começou por causa de um artigo postado no Forum Atos, sobre o preconceito da Globo contra os evangélicos. Como não assisto novelas globais há muito tempo, limito-me a dizer que, na novela Duas Caras, um grupo de evangélicos teria sido retratado atacando homossexuais (ver íntegra do artigo aqui). Entretanto, já fui fã de televisão, e de vez em quando vejo alguma coisa na Globo, principalmente os noticiários. Daí eu me aventurar a dar o meu pitaco.
Quanto à religião, a Globo mostra católicos por obrigação, evangélicos por ojeriza e espíritas com satisfação. De vez em quando, por obrigação, tem que mostrar uma roda de candomblé na senzala. Ateus? Nem pensar! Antes da elevação de Edir Macedo aos píncaros da glória nesta terra, a Globo até que mostrava evangélicos uma vez ou outra, como o Francisco Cuoco (Cristiano Vilhena) na primeira versão de Selva de Pedra, em 1972, tocando bumbo na praça pra ajudar o pai, um pastor pobre (naquele tempo, pastor não pensava muito em dinheiro). A versão de 1986, com Toni Ramos no papel principal, segue mais ou menos o mesmo script. Não deixava de ser caricato, mas era pelo menos decente. Até o Chico Anísio, na virada dos 70 para os 80, tinha o seu personagem pastor evangélico, o Tim Tones (tristemente inspirado no suicídio coletivo de Jim Jones e seus seguidores na Guiana em 1978), e o seu indefectível bordão “vamos passar a sacolinha!” e aquela musiquinha até hoje impregnada nos meus ouvidos: “Tim Tones, glória, Tim Tones, oásis nos desertos dor”. Entretanto, assim como a Tupi (extinta em 1980), a Globo gostava mesmo é de espíritas. Quase não há novela que não tenha um fantasminha camarada, e outras têm temas explicitamente kardecistas, como “A Viagem” e “O Profeta”, ambas de Ivani Ribeiro e “remakes” de novelas dos anos 70 na antiga Tupi. Religião, no padrão global de novela, funciona mais ou menos assim: ninguém tá nem aí com religião, mas tem um parente fanático evangélico, visita um terreiro de umbanda onde estão exilados os negros, vê espíritos a novela inteira, casa como católico, reencarna no final, e começa tudo de novo.
Na virada dos 80 para os 90, incomodada com o crescimento da Universal e a compra da Record, a Globo lança uma campanha de denúncias contra Edir Macedo no Jornal Nacional, chegando a retratá-lo (oficiosamente) como o pastor Mariel, interpretado por Edson Celulari, na minissérie “Decadência”, em 1995. Como o próprio Edir reconheceu na sua biografia, este episódio lhe provocou tal ódio que se decidiu a combater a Globo inflando a Record. O episódio do “chute na santa” do bispo da Universal, Sérgio von Helde, em 12 de outubro de 1995, pôs mais lenha na fogueira. A Globo chegou a usar o Caio Fábio, à época presidente da AEVB – Associação Evangélica Brasileira, para atacar a Universal, mas, além da reação dos “evangélicos” ter sido no mesmo tom, o próprio Caio Fábio viria a cair em desgraça algum tempo depois, por conta do seu envolvimento (inocentado judicialmente em 2005) no episódio conhecido como “Dossiê Cayman”, que tinha supostas denúncias contra FHC e Covas, nas eleições de 1998. A Globo teve que recuar na sua campanha anti-Universal, mas de vez em quando dá suas estocadas, e uma delas é justamente recrudescer a caricatura dos evangélicos nas suas novelas, ou fazer questão de “grudar” o nome evangélico nos meliantes. Quando um corrupto, ladrão ou homicida vai pra cadeia, se ele for católico, espírita ou budista, ninguém vai se interessar, mas se for evangélico, ele será adjetivado, com muito gosto, de criminoso “evangélico”. Não que muitos que usam o nome “evangélico” não mereçam ser criticados por seu apego ao dinheiro, sua obtusidade mental, seu conservadorismo (afinal, como eu sempre digo, “evangélico” hoje é um termo muito mais ideológico do que teológico no Brasil), mas a Globo faz questão de continuar ignorando que cerca de 15% dos brasileiros são evangélicos (e a imensa maioria deles são honestos), que cerca de 1% descendem de orientais e 50% são negros ou “pardos”. Afinal, para o diretor do Jornal Nacional, cujo nome me recuso a reproduzir, nem existe racismo no país (título de um livro dele: “Não Somos Racistas”). Resumo da ópera: alegremo-nos, irmãos, pois na ilha da fantasia da Globo, o Brasil ainda vai se tornar um imenso Leblon.
