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Subscrevendo a Agostinho, assim escreve Bernardo: “Entre as criaturas, só o homem é livre; e todavia, em intervindo o pecado, até mesmo ele sofre certa pressão, mas da vontade, não da natureza, de sorte que realmente assim não se priva da liberdade ingênita. Ora, o que é da vontade, é também livre”[1]. E pouco depois: “Desse modo, não sei por que modo depravado e estranho, mudada pelo pecado, em verdade para pior, a própria vontade para si engendra a necessidade, de modo que nem a necessidade, uma vez que provenha da vontade, pode escusar a vontade, nem a vontade, uma vez que tenha sido seduzida, pode excluir a necessidade”. Pois esta necessidade é, de certa forma, produto da vontade. A seguir, diz que somos oprimidos por um jugo, contudo não outro jugo, senão certa servidão da vontade, razão por que somos miseráveis no tocante à servidão, indesculpáveis no que tange à vontade; assim a alma, de certa maneira estranha e deplorável, sob esta necessidade, há um tempo, decorrente da vontade e perniciosamente livre, afirma ser não só escrava, mas também livre: escrava, em função da necessidade; livre, em função da vontade; e, o que é mais estranho e mais deplorável: é culposa, por ser livre; e é escrava, por ser culposa; e, em decorrência disso, é escrava, quando é livre”[2].
“Estejamos, pois, seguros de que nossa vida esteja plenamente conformada à vontade de Deus e às administrações da lei, quando resulta de ser ela proveitosa, de todas as formas possíveis, a nosso próximo. Com efeito, em toda a lei não se lê uma só sílaba que dite norma ao homem acerca daquelas coisas que tenha de fazer ou deixar de fazer para proveito de sua carne. E, obviamente, uma vez que os homens nasceram assim, os quais, inclinados mais do que o justo, são todos levados ao amor de si mesmos e, por mais que se afastem da verdade, sempre o retêm, nenhuma lei se fez necessária que inflamasse ainda mais esse amor, já de si imoderado. Pelo que é plenamente evidente que a observância dos mandamentos não é o amor por nós mesmos, mas o amor por Deus e pelo próximo, e que vive de maneira a mais nobre e a mais santa aquele que vive e luta por si o mínimo possível, e que ninguém, de fato, vive mais indignamente, nem mais iniquamente, que aquele que vive e luta apenas por si e cogita e busca somente o que lhe é do interesse.”
(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. Vol. 2, cap. VIII, p. 175)
